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As Galegas “AFINIDADES CON PORTUGAL” desde Mondariz
 
Em 1912, sob o título Mondariz-Vigo-Santiago. Guía del Turista, toma forma mais uma das modernas estratégias que a família Peinador, proprietária do Balneário de Mondariz, leva a cabo com o objectivo explícito de situar Mondariz e o seu estabelecimento no mapa. Formidáveis publicistas, os Peinador não desprezaram a possibilidade de utilizar a imprensa, nomeadamente com a publicação semanal La Temporada, para este fim. Anos mais tarde, na década de vinte, vão conseguir, por exemplo, a criação do Concelho Mondariz-Balneario, ainda hoje o município de menor extensão da Espanha.

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Mondariz-Vigo-Santiago. Guía del Turista, obra de divulgação das excelências de Mondariz e da Galiza, ocupa-se também de Portugal. Já na introdução é referida a numerosa afluência de portugueses ao balneário, graças em grande parte à ponte construída sobre o rio Minho em finais do século XIX. Será, no entanto, no capítulo “Afinidades con Portugal” onde Portugal e a sua relação, afinidades, com a Galiza, ganhará um posição de relevo.

Começa o texto com uma declaração sobre a identidade aos dois lados do Minho: a Galiza do Sul e o Portugal do Norte formam uma entidade étnica singular. A seguir são nomeadas diferentes personagens históricas destacadas que têm algum vínculo galego e português. Assim, depois de lembrar o reino suevo implantado sobre a antiga província romana da Galécia, são referidos no texto os nomes de Inês de Castro, o Conde de Andeiro, Camões ou os protagonistas de um acordo luso-galaico face às invasões francesas de inícios do século XIX. Fecha-se o percurso histórico com o seguinte alegado: “Unidas espiritualmente continúan las gentes de ambas riberas del Miño, y en la parte meridional de Galicia perdura el nexo que ha impedido é impedirá siempre el divorcio efectivo entre las dos naciones peninsulares”.

Vê-se no texto o recurso à história como um elemento legitimador dessas afinidades. Com efeito, o passado é largamente invocado em La Temporada designadamente pelo historiador Manuel Murguía, marido da poetisa galega Rosália de Castro. É pertinente apontar que a família Peinador, e consequentemente parte da sua obra, participa nas primeiras décadas do século XX na construção do emergente movimento cultural mas também político denominado galeguismo, em que Portugal é um elemento discursivo e legitimador central. É neste contexto que devem ser interpretadas muitos dos textos, alguns em galego, de La Temporada, Modariz (Suplemento a La Temporada), o próprio Mondariz-Vigo-Santiago… e os trabalhos do referido Manuel Murguía, grande artífice do discurso galeguista, o qual nos Jogos Florais de Tui de 1891 afirma da língua galega “que d’outro lado de esse rio é léngoa oficial que serve á mais de vinte millons d’homes e tem un-há literatura representada po-l’os nomes gloriosos de Camoens e Vieira, de Garret e d’Herculano”.

Do lado português, e apôs a forte emigração galega a Portugal desde o século XVII, a imagem da Galiza e dos galegos tinha ficado seriamente danificada pelo estereótipo negativo dos emigrantes, como ficou patente nos desenhos de galegos de Bordalo Pinheiro, ou ainda nos usos populares da palavra galego, galegada, etc.; lembre-se a este respeito os adágios populares “filho d’um galego”, “trabalhar como um galego”… Contudo, desde as últimas décadas do século XIX, em ocasiões em estreita relação com individualidades galegas, autores como o político e intelectual republicano Teófilo Braga ou Oliveira Martins, por citar apenas alguns nomes, começam a elaborar um novo discurso identitário em que a Galiza passará a ocupar outra posição, bem distante dos galegos taberneiros, moços de fretes ou aguadeiros que pululavam na altura por Lisboa. Assim, a Galiza passa a ser encarada como um espaço próximo do ponto de vista histórico e comum do ponto de vista étnico. Neste quadro, a língua será mais um elemento de aproximação, como indica o erudito Oliveira Martins, em carta dirigida aos Jogos Florais de 1891: “portugueses e gallegos somos um e o mesmo povo na lingua e no sangue […] Desde o Finisterra pelo menos até o Mondego, o povo é absolutamente o mesmo, e se não tivesse sido o facto da scizão política pelo Minho, a lingua seria absolutamente identica”.

Outra das personalidades centrais da cultura portuguesa que se pronunciou sobre a Galiza foi Fernando Pessoa, muito provavelmente informado por Alfredo Guisado, membro de Orpheu e descendente de galegos da zona de Mondariz, amigo aliás da família Peinador. Para o autor de Mensagem, existiam tanto razões para a Galiza ser região espanhola como para formar parte de Portugal “a que por natureza e raça pertence e também não perde pé no valor civilizacional, porque passa a ser parte de outra nação europeia definida civilizacionalmente”. Europeia é, bastantes décadas mais tarde, a Euro-região em construção da que fazem parte a Galiza e o Norte de Portugal.

Para finalizar estas afinidades, uns versos de Júlio Dantas antigo presidente das Academia das Ciências e assíduo frequentador do Balneário, do poema “A Gaita Gallega” dedicado ao poeta galego Ramón Cabanillas e publicado em La Temporada em 1925:


Mas porque é que se marejam
Os meus olhos só de ouvir-te,
Ó velha gaita gallega?
D’onde vem o sentimento
Que tu espertas em mim?
[…]
Porque és também portugueza,
Ó velha gaita gallega,
É que me orgulho de ti

 

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